Por que o presidente queria tanto decretar o fim da pandemia neste 31 de março?

Bolsonaro queria acabar com a Covid-19 no país por decreto, mas o ministro da Saúde frustrou seus planos; será que isso tudo a ver com o dia do golpe militar no Brasil em 1964?

Myke Sena/MS – 05/08/2021O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, afirma que ainda não é a hora de rebaixa a pandemia para endemia

Marcelo Queiroga acaba com o entusiasmo do presidente Jair Bolsonaro. Isso não se faz, ministro! Bolsonaro ia anunciar nesta quinta-feira, 31 de março, o fim da pandemia no Brasil. Ia, mas não vai mais. No fim da tarde de quarta-feira, 30, o ministro da Saúde comunicou ao seu superior que não há condições para acabar com a pandemia agora, como era seu desejo. A situação continua perigosa. Bolsonaro não gostou e não escondeu de ninguém que ficou contrariado. Afinal, ele determinou que o Ministério da Saúde trabalhasse com afinco para isso. Não deu. O presidente queria acabar com a pandemia por decreto. Faz tempo que ele vem falando nisso, sempre mostrando a máscara como um utensílio desnecessário e imprestável. Na verdade, para ele, a pandemia nunca existiu. Foi tudo fricote de todo mundo. Até as mais de 650 mil vidas perdidas no Brasil devem ser uma mentira, talvez uma ilusão de ótica.

O pessoal que resta no Ministério da Saúde trabalhou dia e noite para deixar tudo certo. Bolsonaro pretendia fazer o anúncio nesta quinta-feira. Teria que ser nesta quinta-feira: de pandemia passa para endemia. Até o ministro Marcelo Queiroga não aguentava mais o desespero de seu chefe. Encolhido no seu receio, Queiroga comunicou então que tem a caneta, mas tem de usar de maneira apropriada. Contrariado, o presidente não gostou. Será que isso tudo a ver com a data, 31 de março, o dia do golpe militar no Brasil em 1964? Seria uma espécie de comemoração. Se tudo desse certo, a partir de hoje, 31 de março, a Covid deixaria de ser uma doença de emergência. Passaria a ser aquela “gripezinha” mesmo, como disse Bolsonaro quando o coronavírus atacou o mundo.

A equipe do ministro da Saúde analisou mais de 200 portarias do governo sobre a Covid. É uma fixação: a ordem é rebaixar o status de pandemia para endemia. Os especialistas na doença dizem que o presidente está se precipitando. Uma pandemia não acaba só porque ele quer. Não é assim. Mas como Bolsonaro é um homem poderoso e manda no Brasil, ela faz o que bem entende. Desta vez não foi possível. O número de mortos tem baixado significativamente, é verdade. Mas muitos ainda estão morrendo pela Covid. O presidente quer que a crise tenha fim porque, como ele diz, o cenário da doença melhorou no Brasil. As medidas necessárias para reclassificar a pandemia no país vêm sendo estudadas já há algum tempo. De qualquer maneira, o Brasil continua a ser o segundo país no mundo com maior número de óbitos. Fica atrás somente dos Estados Unidos.

Muitas reuniões já foram realizadas entre Bolsonaro e o ministro Queiroga, que anda meio sumido. Vários secretários de Saúde do Brasil afirmam que uma pandemia se inicia e finaliza quando for determinada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), sob orientação do Comitê Consultivo de Emergências. A pandemia não vai terminar aqui por uma portaria do governo federal. Isso é coisa de gente louca. Se passasse a ser endemia neste 31 de março, a doença provocada pelo coronavírus deixaria de ser vista como um caso de emergência. Não seria mais necessário evitar aglomerações, exigir passaporte da vacina, máscara e outros cuidados. Em vez de um, poderíamos fazer três ou quatro, até cinco Carnavais de uma só vez. Não haveria mais restrição para nada. Bolsonaro queria anunciar o fim da pandemia nesta quinta-feira. Simbolicamente, é uma data importante para o capitão. Voltando aos especialistas, eles dizem que decretar o fim da pandemia representa uma decisão complexa, arriscada e precipitada. Então, ainda não estamos livres. O anúncio do fim da pandemia fica para outra vez, quando a ciência assim entender. A pandemia não vai acabar quando o presidente determinar. Mesmo sendo no Brasil, isso não é assim.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.



Fonte: Jovem Pan